Sua carreira em suas mãos: como se adaptar ao novo cenário musical

Sua carreira em suas mãos: como se adaptar ao novo cenário musical

Ser descoberto por uma grande gravadora, conseguir um contrato e ficar rico. Durante muitos anos, esse foi o sonho de muitos músicos. Mas nos dias de hoje, os artistas já sabem que o sucesso não depende mais da sorte de ser visto pelo empresário certo, mas sim, de muito trabalho e dedicação.

O segredo do sucesso mudou sobretudo porque a forma de fazer, divulgar e consumir música já não é mais a mesma. Conversamos com o pessoal da Tratore, a maior distribuidora de música independente no Brasil, e eles explicaram o novo panorama do cenário da música.

Maurício Bussab é diretor da Tratore, distribuidora especializada na viabilização e comercialização da produção independente.

O diretor da empresa, Maurício Bussab, conta que a principal mudança começou na época em que os formatos de arquivo mudaram: com a possibilidade de baixar músicas gratuitamente, quem foi mais afetado no geral foram as gravadoras. "Hoje temos poucos selos no Brasil. É uma consequência direta daquela época em que as pessoas faziam downloads do que queriam ouvir. Porque a receita em distribuição caiu muito e, sobretudo as empresas pequenas não tinham mais como sobreviver", relembra.

No entanto, nos últimos anos, os downloads foram progressivamente sendo substituídos por outras formas de ouvir música e a forma de se investir no artista mudou. "Hoje, as pessoas não querem andar com pendrive ou ficar fazendo baixando conteúdo: elas consomem música via streaming: querem saber se o artista está no Spotify ou no Youtube, por exemplo - e com isso está havendo uma volta do interesse empresarial na produção musical, porque o fonograma voltou a ser rentável", observa Maurício.

Ele conta que os lançamentos feitos por grandes gravadoras atualmente, no nosso país, não chegam a 10%. Isso porque o modelo de investimento é outro. "Se pensarmos que mais de 90% dos  discos são lançados por pequenas gravadoras ou diretamente pelos artistas, logo percebemos que existe uma nova forma de abordagem: os grandes grupos não investem mais em promessas. Eles esperam o músico se consolidar, ter um público formado e só então investem neles, para um segundo ou terceiro disco", esclarece o diretor da Tratore.

Mais responsabilidades para o artista

Se a gestão de carreira não pode ser mais delegada, o artista passa a ter muito mais responsabilidades do que só fazer música para chegar ao sucesso. Na avaliação de Maurício, mesmo que tenham outras pessoas na equipe, o músico de hoje tem que agir como um empreendedor.

Foto: Pexels

"O artista que fica no quarto compondo enquanto o empresário toma conta da vida dele não existe mais. Não pode existir mais, não tem mais espaço para ele. É preciso trabalhar duro. Ter visão empreendedora é uma competência fundamental para o músico nos dias de hoje. Mas falta um conhecimento mais específico de planejamento na educação formal do músico. Não existe um esforço em ensinar empreendedorismo ou planejamento da carreira nos cursos de música e isto já está começando a fazer falta, porque o músico fica só no senso comum e muitas vezes perde oportunidades por não conseguir ter estratégias adequadas", pondera.

Dentre as principais ações que conduzem a uma carreira bem sucedida, ele destaca a atenção com os fãs na hora de divulgar o trabalho. "Há 20 anos, o artista tinha que dedicar muito tempo conversando com gravadora, editora ou imprensa, por exemplo. Hoje essas instituições ainda ajudam, mas não são determinantes no sucesso. Porque não há necessidade de intermediários com o público. É muito mais importante gastar tempo se dedicando aos fãs. Porque mesmo que o músico não esteja na mídia o tempo todo, os seguidores estão prestando atenção em tudo que o artista diz e faz", diagnostica Bussab.

Ele ressalta que a atenção e dedicação ao público também deve ser estratégica: o mais importante é garantir a presença nos eventos que o músico produz. "O show é a principal fonte de receita de um artista. E, por mais que você consiga transmitir um show ao vivo, não dá pra comparar a presença física com a digital. É uma experiência diferente. Por isso, um fã que vai ao seu show, que está ali, deve ser encarado como mais importante pelo artista e ser ainda mais cativado. Garantir que seus shows estejam sempre cheios é das coisas mais fundamentais para ter uma carreira sustentável", conclui

Comunicação eficiente e planejada

A melhor forma de falar com o público varia muito. Linguagem, imagens e formas de interação dependem da identidade de cada artista, mas se organizar para ter uma comunicação estratégica é fundamental para todos.

"Uma comunicação planejada e direcionada é fundamental para obter bons resultados", David Dines

David Dines é o responsável pela produção de conteúdo e gestão de mídias sociais na Tratore. Além de auxiliar músicos independentes a preparar um bom plano de comunicação, ele é o principal responsável pela própria carreira musical, no projeto Siso. Com experiência de causa, ele garante que o planejamento é o segredo para atingir bons resultados.

"Tudo começa em uma avaliação da intenção do artista, para que toda a comunicação seja direcionada e esteja na mesma linha. O material de comunicação deve ser bem feito, profissional. Isso quer dizer produzir e disponibilizar um bom release, fotos profissionais em diferentes formatos, uma lista de links úteis na divulgação e, claro, a música dele também deve estar disponível. Então, o músico precisa escolher as mídias onde ele vai estar e quais plataformas vai utilizar, para organizar uma divulgação realmente eficiente. Quando for lançar um disco, por exemplo, o artista deve observar os prazos exigidos por cada plataforma e se assegurar que na data do lançamento o público poderá encontrar o trabalho onde preferir ouvir. Conhecer o seu público ajuda a descobrir quais são os principais lugares em que o músico deve se preocupar em estar", explica.

Se antes o artista geralmente tinha os seus primeiros fãs a partir do público local, com a distribuição online das músicas, não é incomum hoje em dia ter gente de todos os lugares do mundo te ouvindo e também mudou a forma de se planejar uma ação que atinja os fãs. "O público pode ser mais diverso hoje em dia, mas é mais fácil de compreender quem são seus fãs, porque temos métricas muito detalhadas sobre quem te ouve, de onde te ouve, faixa etária, gênero, nível de interação. Essas informações são muito valiosas, porque dá pra saber com quem você já se comunica bem e quem você ainda precisa se esforçar mais para atingir. Pelas suas métricas, você pode escolher onde deve fazer show, pensando em onde vai ter gente querendo te ouvir cantar. São ferramentas muito essenciais", garante David.

Quer conhecer mais sobre as novas formas de divulgação? Vem descobrir porque o Mercado digital da música dita as regras do jogo.

Sobre o Autor

La Otra

Soluções criativas no ecossistema musical

Deixe seu comentário