Momentos musicais: Qual a semelhança entre o samba e o funk?

Momentos musicais: Qual a semelhança entre o samba e o funk?

No Brasil há uma maneira de se criar leis por qualquer cidadão. A pessoa pode enviar uma sugestão para o Senado Federal e se sua ideia for apreciada e assinada por mais de 20 mil pessoas a proposta caminha para analise dos senadores. Acontece que um empresário de São Paulo teve a brilhante ideia de que o funk (isso mesmo, o ritmo funk) deve ser criminalizado e já está nas mãos do senador Romário (o ex- jogador de futebol). Sabe quem sofreu este mesmo problema? O samba.

Foto: Vincent Rosenblatt

Há uma corrente de historiadores da música brasileira que defende a ideia de que o funk é o próximo samba (por favor, caro leitor, não leve ao pé da letra, um ritmo não vai substituir o outro, mas terão lugares semelhantes na identidade nacional daqui uns tempos). Esses pesquisadores entendem que a origem de ambos os ritmos é a mesma. Pare para pensar um pouquinho e perceba que esses pensadores não estão errados. O samba nasceu na periferia e representava um povo que era marginalizado, desprezado e preterido pelo Estado. O samba era tido com um ritmo menor e sem criatividade. A música era tachada como a de um povo ruim, feita para acompanhar manifestações religiosas profanas e que tendiam para o mal. Além disso, o samba era vulgar, a forma de dançar era sexual e muito sensual. Outra coisa, o samba contava o que acontecia na região onde era tocado, ou seja, brigas com navalha, pernadas, capoeira, orgias, traições e assassinatos.

No século XX o samba foi proibido e a pessoa que andasse na rua portando (a palavra é portando mesmo) um instrumento de percussão era presa sob a Lei da Vadiagem de 1890. Há uma história interessante sobre essa questão do porte de instrumento musical, o grande João da Baiana (1887 – 1974) foi preso e teve seu pandeiro confiscado. Porém ele e sua banda foram convidados para fazer um som na mansão do senador Pinheiro Machado (1851 – 1915), mas João estava sem seu instrumento e resolveu não ir e é claro fez muita falta na apresentação.  Ao saber o motivo da ausência, Pinheiro Machado mandou comprar um novo pandeiro para João da Baiana e fez o seguinte bilhete com o objetivo de que fosse gravado no novo instrumento: “A minha admiração, João da Baiana – Senador Pinheiro Machado”. Mais detalhes sobre este episódio você pode ler no livro “Uma história do samba – As Origens” de Lira Neto. Também este episódio é contato no livro de Sérgio Cabral, “Escolas de Samba do Rio de Janeiro”.

Entenda a manifestação!

Pense sobre o funk que é o ritmo atual das comunidades de periferia. A música é tachada como pobre, de baixa qualidade e mal feita. As pessoas repreendem os funkeiros porque dizem que eles fazem apologia ao crime, ao tráfico, ao estupro e a sexualização. Olha aí a semelhança!

É de extrema e suma importância entender que a música, como parte integrante do conjunto de manifestações culturais de uma sociedade, é o espelho da mesma. Sendo assim, se o funk, como samba, cantam crimes, dores e a sexualização exacerbada, o problema não é da música, mas da sociedade, da cidade, da política que estão apresentando. Criminalizar o funk, como tentaram e fizeram com o samba, é retroceder um século.

A batida do funk carioca é uma mistura do que veio do gênero norte-americano agregando a batida do samba. Nunca percebeu a presença do surdo no funk brasileiro? Preste atenção. Abra os ouvidos para entender que a música é muito mais que estética e beleza, a música é identidade, é espelho, é o que uma sociedade que mostrar. E, por algumas vezes, é um grito de socorro.

Sobre o Autor

Camila De Avila

Produtora editorial e jornalista, bailarina clássica pela Fundação Clóvis Salgado, cantora (nas horas vagas), especialista em história da Cultura e da arte e produção e crítica cultural. Eterna estudante da história da música brasileira.

comentários

  1. Paolo
    04 de novembro de 2018 em 03:32
    Resposta

    Procuro pesquisar, ler, estudar e me informar muito sobre estilos musicais “marginalizados” como o blues, o samba e o funk, também, e a sua é análise mais inteligente, profunda e sensível que já li. Parabéns e muito obrigado.

Deixe seu comentário