Momentos Musicais: A força de Elza Soares

Momentos Musicais: A força de Elza Soares

Existem artistas musicais que mais que simples (como se fazer música fosse algo simples) músicos são referências históricas, comportamentais, de pensamento e exemplos para todos nós. Vou falar aqui de uma pessoa que, além de uma exímia e singular cantora, é exemplo de vida. Elza Soares.

Foto: Divulgação

Há quem não goste do jeito dela cantar, mas tem gente que percebe no canto visceral e rascante da intérprete e compositora carioca muito mais que a simples emissão vocal (muito bem colocada, ousada e definida), mas como um grito de um grupo de pessoas que querem ter vez e voz. A maior parte das pessoas conhece aquela velha história de Elza chegando ao lendário programa de calouros do ferino Ary Barroso (1903 – 1964) e ele, com muita empáfia perguntada a ela: De que planeta você veio, menina? E ela respondendo, serena e firme: Do planeta fome. É importante ressaltar que Elza não foi cantar pelo simples prazer e desejo de ser uma artista da música (claro que isso também havia), mas para comprar remédios para o seu filho recém-nascido. Quando soltou a voz (que voz!), ganhou o programa e conseguiu o dinheiro. A partir daí não parou mais de cantar.

É importante saber sobre o passado de Elza. Lembrar as suas dores é necessário para entender a importância de sua figura. Ela perdeu cinco filhos para a morte, apanhou do marido, dentre outros “carinhos” da vida. Um tombo no Teatro Metropolitan no Rio de Janeiro causou uma lesão na coluna que deixou na cantora dificuldade para andar. Depois a cantora sofreu acidente de carro durante uma turnê, em 2011, na Europa e teve a quarta vértebra prejudicada. Ela se refez. Quem é Fênix perto de Elza?

Na crista da onda

A cantora está no momento na crista da onda, merecidamente. Com seu último disco, “A mulher do fim do mundo”, lançado em 2015 (uma obra-prima), a cantora leva o ouvinte a refletir sobre o mundo. No cenário do show deste álbum, a cantora senta em seu trono de lixo, a figura frágil (frágil?) de Elza Soares aparece soberana, mostrando, como disse Manoel de Barros no poema “Ruína”: “Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”.  E é isso que ela mostra no palco e no premiado disco que ganhou o Grammy Latino 2016 na categoria Melhor Álbum de Música Popular Brasileira. A canção hit do álbum é “Maria da Vila Matilde”, composição de Douglas Germano, é um hino para empoderamento feminino cantando por uma mulher que é a marca da força da mulher.

O olhar para o novo

É necessário ressaltar como Elza Soares sempre esteve cercada dos grandes nomes da música brasileira. Por admiração deles por ela e vice-versa. Caetano Veloso, Chico Buarque (que fez para Elza a canção “Dura na queda” lançada pela cantora no disco “Do cóccix até o pescoço” lançado em 20012) e José Miguel Wisnik são alguns desses artistas que percebem que Elza Soares é mais que uma cantora, é uma força. Outra grande característica da cantora é a ousadia, Elza sempre conversou com novos artistas e explorou os vários ritmos do Brasil, em seus discos é possível ouvir samba, choro (à moda Ernesto Nazareth), baladas, funk e hip hop. O olhar para o novo também é forte na cantora, foi Elza que mostrou para o Brasil as belezas do cantor e compositor mineiro Vander Lee (1966 – 2016). A mais recente parceria de Elza é com a cantora e compositora baiana Pitty, o single “Na pele” que diz: “Contemple o desenho fundo/Dessas minhas jovens rugas/Conquistadas a duras penas/Entre aventuras e fugas”.

Elza Soares é uma cantora que, mais que uma artista, é uma mulher que abraça, ou melhor, engole a vida. Como ela mesma canta com Wisnik na canção “Presente”. “Eu quero simplesmente, você nesse instante/amante da vida/da vida amante/E o gozo do mundo/gozo sem fundo/gozamos durante”.

Momentos Musicais é a coluna quinzenal da jornalista Camila de Ávila. Leia também Qual é a semelhança entre o samba e o funk?

Sobre o Autor

Camila De Avila

Produtora editorial e jornalista, bailarina clássica pela Fundação Clóvis Salgado, cantora (nas horas vagas), especialista em história da Cultura e da arte e produção e crítica cultural. Eterna estudante da história da música brasileira.

Deixe seu comentário